“FORA DO EIXO”, uma homenagem ao poeta Manoel de Barros
[ 09/12/2006 ]
“Fora do Eixo”, programação especial de férias da TV Educativa Regional homenageia os noventa anos do poeta Manoel de Barros, que serão completados em 19 de dezembro de 2006. Encerramos nosso período frente às emissoras públicas de Mato Grosso do Sul, da mesma forma que temos feito nesses últimos anos, prestando de contas da nossa produção cultural televisiva.
A poesia será o principal destaque da grade e na contramão do global “tudo a ver”, levaremos em conta o conteúdo e a originalidade dos cenários sul-mato-grossenses e nada melhor que Manoel de Barros para representar a “universalidade da aldeia”. O bordão “Espelho de Mato Grosso do Sul” se distingue das programações do eixo central do Brasil, graças aos nossos parceiros e funcionários das emissoras públicas, que com talento e heroísmo, fogem dos parâmetros comercias que norteiam as TV no país, dando espaço para experimentação e buscando novos formatos. Diversificação, independência de opinião, criatividade, educação e comprometimento com o público, são os pilares de nossos projetos, com o objetivo de cada vez mais construir a cidadania e a visão crítica dos nossos telespectadores.
A professora Maria Adélia Menegazzo, na revista Cultura & Arte, projeto que traz um vídeo que será exibido no “Fora do Eixo”, introduz bem a questão da regionalização. Diz ela: “A arte sul-mato-grossense em todas as suas linguagens não precisa ser uma arte sobre o Mato Grosso do Sul, mas necessariamente a que se impor frente às noções ingênuas da representação regional, atualizando mecanismos como a metalinguagem, a ironia e o jogo. Impõe-se à linguagem regional os elos de uma diversidade estruturada sobre o universal. Um modo antropofágico de apropriar-se e de ultrapassar o caráter multifacetado de nossa cultura”.
Mesmo anacrônico, conteúdo e padrões éticos e estéticos com suas singularidades tornam um desafio contemporâneo refletir o Mato Grosso do Sul na tela da TVE Regional.
Essa visão que ainda se tem de TV, do eixo central do país, colonizando o resto do Brasil, tem mudado, principalmente pelos aspectos tecnológicos, como a internet, que em principio é descentralizada, ou mesmo questões como só produzir TV quem tinha muito dinheiro. Atualmente os equipamentos, mesmo os de transmissão, estão cada vez mais acessíveis. Claro que isto não significa garantia de qualidade. Muita produção em perfil independente pode se tornar mais conservador ou resultar mais baixaria ainda, do que parte da programação que está no ar nas grandes redes.
Acrescentamos que a produção de programas dedicados a diferentes segmentos da população, valorizando a cultura e a arte do nosso estado, respeita os valores éticos e sociais da pessoa, contribuindo para a formação do individuo e da coletividade.
A discussão sobre a qualidade da tevê é quase tão antiga quanto a própria TV. Há desde os analistas que desqualificam a programação por inteiro até os adeptos da retórica de que as emissoras mostram o que o público deseja ver. O que queremos mostrar é que a TV local tem frestas nas quais cabem bons programas em sua grade. Desta forma não é desqualificação nenhuma destacar que o reflexo daquilo que é o espelho de Mato Grosso do Sul está na grade da TVE Regional.
Submetemos esta programação à avaliação dos nossos telespectadores, sugerindo ainda uma reflexão da atual criação cultural do estado. Se cada vez mais as mudanças tecnológicas determinam o surgimento de um novo telespectador fora do centro, nada mais oportuno que discutirmos nosso papel impulsionado por estas mudanças. Ao invés de telespectador cativo ou receptor passivo, sem acesso e poder de escolha, um telespectador emancipado.
Do tempo do baião de dois que a besta fera ainda não comeu, meio bicho, meio bugre, neto dileto de Dona Anália, uma legítima tupi-guarani, que se casou com um imigrante da terra de Cervantes, cresci magro, lépido e ligeiro, e jamais me dei conta de que um dia fosse virar o tal do “obeso mórbido”. Com certeza minha velha avó, raizeira de primeira, que gostava de receitar alfavaca ou manjericão para curar feridas e hematomas, suco de couve, entre outros, para combater asma, bronquite, enfermidades do fígado, cálculos biliares, renais e etc., além de casca de cancorosa para perder uns quilinhos a mais, ficaria indignada ao saber que, para emagrecer, seu neto teria que diminuir o estômago através de uma cirurgia.
Mas que nada, vovó (que Deus a tenha)! A medicina já evoluiu a tal ponto que, o que parecia um bicho de sete cabeças, tornou-se um procedimento rotineiro capaz de suscitar milagres impossíveis antes até para as sagradas ervas. Pois não é que, mal se passou um mês, e já se foram 20 quilos. E mais surpreendente ainda: a operação não é o que aparenta ser. E, apesar de cara, os principais planos de saúde (no meu caso a CASSEMS) e até o SUS bancam. Não que eu tenha me tornado um propagandista deliberado da tal operação. Sei que, ao contrário do que alardeiam, existem riscos e óbitos que, segundo consta, beiram 1% dos operados.
Mas minha experiência, graças à competência médica, tem me proporcionado um outro estilo de vida, me adequando definitivamente a uma reeducação alimentar, cujo resultado mais visível é a melhoria na saúde e qualidade de vida.
Mesmo assim, não tive como deixar de lembrar de minha avó, que ao convencer-nos de optar por suas “garrafadas”, saia-se sempre com essa: - “Você já leu bula de remédio, meu filho?”.
Como nas bulas, aonde vêm expressos os efeitos colaterais que assustam qualquer paciente, na cirurgia da obesidade, o paciente assina um “termo de conscientização informado”, antes de ir para a mesa de operação, levantando as mesmas desconfianças de minha velha avó.
(Transcrição dos principais trechos do termo de conscientização informado)
...Não há garantias que uma complicação séria não venha ocorrer em qualquer caso. As mais freqüentes e sérias complicações que podem ocorrer são:
- Infecção de parede, cavidade corporal (abdominal ou tórax), pulmões (pneumonia, por exemplo).
- Inflamação ou infecção desses órgãos: pâncreas (pancreatite), estômago (gastrite ou úlcera gástrica), esôfago (esofagites com dor no peito, queimação, etc.), figado (hepatite), vesícula biliar (colecistite, cálculos), rim (pielonefrite, insuficiência renal, nefrite), bexiga (cistite), duodeno (duodenite, úlcera duodenal).
- O baço pode sangrar durante a cirurgia e precisar ser removido. Isto pode aumentar seriamente o risco de infecção pós-operatória.
- Insuficiências dos órgãos como coração, rins, ligado, pulmões podem ocorrer após a cirurgia da obesidade.
- Coágulos das veias dos membros inferiores, pelve ou qualquer outro lugar do corpo podem se formar e chegar aos pulmões, causando dificuldades para respirar ou mesmo a morte. Esses coágulos também podem resultar em edema ou ulcerações, temporárias ou permanentes, nas pernas.
- Líquidos do estômago ou intestinos podem sair da cavidade abdominal, de outros órgãos ou através da pele. Pode ocorrer drenagem para uma bolsa por longo período (fistulas).
- Alterações do paladar e nas preferências alimentares ocorrem com freqüência. Muitos pacientes têm dificuldades em comer certos alimentos como carne vermelha, de consumo habitual antes da cirurgia. Algumas vezes após a cirurgia, pode ocorrer intolerância por certas comidas em alguns pacientes.
- Alimentos ou líquidos podem não passar pelo reservatório gástrico ou intestino, necessitando de dilatação por instrumentos ou endoscopias (que têm seus próprios riscos). Tubos para alimentação podem ser passados para o estômago, Intestinos ou veias, caso o paciente seja incapaz de comer ou beber o suficiente pela boca. Cirurgia pode ser necessária....
- Sangramento do estômago, hérnia, abertura dos grampos cirúrgicos, necessidade de reoperação por estas ou outras razões, complicações de anestesia, problemas psiquiátricos como depressão que precisam de cuidados especializadas e internação em clínicas psiquiátrica, e também as mortes são possibilidades resultantes da cirurgia. A estatística no Brasil mostra que aproximadamente I% dos pacientes morre após a cirurgia da obesidade.
- A reoperação pode ser necessária e nenhum paciente deve se submeter a cirurgia da obesidade se não estiver preparado a aceitar essa possibilidade, caso se torne real.
- A internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pode ser necessária para observação ou tratamento de qualquer complicação que venha ocorrer da cirurgia.
- Após meses e anos, qualquer tipo de problema nutricional pode ocorrer, incluindo falta de vitaminas, proteínas, calorias, minerais, etc. Sintomas disso podem incluir mal estar, paralisias, confusão, exantemas, anemias, queda de cabelo, problemas de ossos ou articulações, ferimentos que cicatrizam com dificuldades, irritabilidade na língua, cegueira noturna, dormência, etc. Após a cirurgia da obesidade é necessário tomar suplementos vitamínicos e acompanhamento do cirurgião da obesidade, ou um médico bem experiente nesta área, por toda a vida. O paciente pode precisar de injeções de vitaminas todo o mês ou por toda a vida.
- Mesmo que o paciente alcance a meta da perda de peso, não significa que ele estabilize este peso pelo resto de sua vida, podendo perder mais peso ou eventualmente ganhar peso após este emagrecimento em qualquer época após a cirurgia.
- Com a perda de peso, a pele dos braços, pernas, pescoço, abdômen, face ou qualquer outro local pode tornar-se enrugado, curvando-se ou pendurando-se como um grande dobra. Isso pode tornar-se totalmente irritante, embaraçoso ou evoluir com erupção da pele ou infecções e odores. Em conseqüência disto, o paciente pode sentir necessidade de outras cirurgias futuras. Caso isto aconteça, o cirurgião estará disponível para discutir esta ou qualquer outra questão...
Assinando esta declaração, eu estou demonstrando que li e aceitei todos os termos acima sem qualquer dúvida. Fui encorajado(a) a perguntar todas as questões, sendo todas bem respondidas, e entendi todas as resposta.
É... como vovó já dizia: - “Quem lê bula de remédio, não toma...” E quem lê termo de médico... opera?
As maiorias (excluídos) se incorporam à modernidade e se aproximam dela sem deixar a sua cultura oral, ou seja, não fazem pelas mãos dos livros, mas sim a partir dos gêneros e narrativas das linguagens e saberes, da indústria e da experiência audiovisual, nota Valério Fuenzálida Fernandez em seu artigo “Por uma televisão pública para a América Latina”.
No fortalecimento de uma rede pública de televisão, o que está em discussão são profundas transformações na cultura cotidiana das maiorias e, especialmente, em novas gerações, que sabem ler e se contrapõem ao exotismo de um analfabetismo terceiromundista. São destas transformações que devem se incumbir uma rádio ou tv onde o caráter público deixe de remeter aos pactos e arranjos culturais politiqueiros, para significar um âmbito vital da percepção e da participação cidadã, nos propõe Fuenzálida.
A emissora pública deve interpelar o cidadão, enquanto que a comercial deve falar ao consumidor. Devemos ser o cenário do diálogo intercultural. Deve-se programar e produzir para um meio de um chamado público através de processos de alocação de espaços transparentes e participativos, coerentes com as políticas culturais de comunicação e educação do lugar em que habitamos.
Em cidades cada vez mais extensas e descentralizadas, o rádio e a tv acabam sendo dispositivos de comunicação capazes de oferecer formas de contrabalançar o isolamento das populações marginalizadas, estabelecendo vínculos culturais comuns à maioria da população. Do imigrante e do desalojado até os que têm o destino de continuar imigrando indefinidamente, deslocando-se dentro da cidade/estado, à medida que vão sendo urbanizadas as invasões e valorizados os terrenos.
O que se propõe, então, é retomar a pergunta sobre a responsabilidade social, democrática e cidadã das emissoras públicas. Precisamos projetar e discutir programas a partir das necessidades e expectativas do público e de todas as minorias excluídas da tela de massa.
Devemos ampliar as discussões que nos ajudem a explicar o mundo social de modo a transformá-lo, e não a obter satisfação e tirar proveito do ato de sua negação informada. O que propomos é que sejamos capazes de distinguir entre a indispensável e permanente necessidade de construir imaginários e identidades, por que, quer nos encante ou nos dê asco, uma emissora pública mais popular constituiria hoje o mais sofisticado dispositivo de moldagem e de formação da nossa cotidianidade.
Há separações incisivas entre a alta cultura e cultura popular, entre espaço de ócio e trabalho, entre saber especializado e experiência profana, entre vanguarda e kitsch, nos ensina Martín Badero, no seu “El Consumo Cultural en America Latína”. É justamente para desmontar este círculo que conecta, num só movimento a “boa consciência” dos intelectuais e “a má consciência” dos comerciantes da cultura, que deve se orientar a pesquisa que precisamos para construir uma emissora pública de cultura (no mesmo sentido que dizemos “de qualidade”).
Debater e compreender as emissoras públicas significa nos compreendermos como sociedade, nos olharmos como cidadãos, nos pensarmos como público.
Bosco Martins é jornalista e Diretor-Presidente da TVE Regional de Mato Grosso do Sul